Faz sentido dar mesada? | Moedas e chupetas #2

Este é o segundo texto da série Moedas e chupetas, para acessar o primero, clique aqui.

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É bastante provável que você receba um certo montante de dinheiro todos os meses. Salário, pró-labore, dividendos, pensão, aposentadoria. Na melhor das intenções, sem se dar conta do quão complexo é gerenciar 30 dias de maneira ininterrupta, é possível você ache uma boa ideia criar uma estrutura parecida para ensinar algo relacionado a finanças para os pequenos e pequenas. Se eu recebo um valor mensalmente e lido com o dinheiro, talvez seja bom que meu filho passe por algo parecido, para que ele se familiarize com as engrenagens, para que aprenda como funciona o mundo dos cifrões. 

Te convido a dar um passo para trás. 

Se algum cientista social – com muito tempo livre – se dedicasse a estudar uma turma qualquer de estudantes de colégio, é provável que ele identificasse um fenômeno bem impressionante, que talvez pudesse ser apelidado de "efeito caderno novo". Não seria necessário um experimento muito complexo, bastaria tirar fotos das 5 primeiras folhas de caderno, preenchidas em fevereiro, e das 5 últimas, preenchidas em novembro, e compará-las. 

Em janeiro, informações bem organizadas, diversas cores, lousas e mais lousas copiadas com afinco, letras redondinhas, orgulho da mãe. Em novembro, garranchos, caos, uma cor só, linhas solenemente desprezadas, se descer mais um degrauzinho já vai dar inveja a muito médico com anos de receitas escritas em hieróglifos. 

É natural, começar projetos é uma delícia – mesmo que seja algo bobo, como um caderno novo –, porém mantê-los funcionando é dolorido. Com nosso planejamento financeiro acontece igualzinho. Começamos com todo o cuidado e zelo, mas logo o ânimo se esvai e seguimos empurrando do jeito que dá. Só vamos levantar a cabeça e tentar de novo no mês seguinte, da mesma forma que os estudantes só se preocupam em caprichar na letra quando iniciam um novo caderno. Se essa sensação de começo de projeto é tão gostosa, por que não organizar as coisas de modo que ela surja com mais frequência?

A verdade é que trinta dias é tempo demais. Tomar o mês como unidade padrão é, na maior parte dos casos, um erro. Não temos capacidade de gerenciar tanto de uma vez só. A vida vira de ponta cabeça. No dia 1 está tudo certinho, no dia 16 a vida está tão zoneada que parece um videozinho de comédia do YouTube. Se crio um planejamento no dia 1 e no dia 8 percebo que minha vida virou um bloquinho de carnaval, é provável que a motivação para colocar a coisa no trilho novamente só surja no dia 30 (digo porque um bloquinho sempre está acompanhado de outro bloquinho, que por sua vez está acompanhado de outro bloquinho – e em todos eles têm muita catuaba). 

Se eu e você, que temos algum nível de informação, que já estamos nessa ciranda há um bom tempo, temos dificuldade para colocar o bolso, a mente e o peito na mesma frequência, por que esperamos que uma criança consiga fazê-lo? 

"Filho, você está guardando um pouquinho da sua mesada para o futuro?"
"Não... e você, mãe, está guardando um pouquinho do seu salário para o futuro?"


Da mesma forma que faz sentido organizarmos nossa vida financeira em semanas, seria muito melhor deixarmos a mesada de lado e começarmos a trabalhar com o conceito de semanada.  É como se estivéssemos oferecendo um caderno novo toda segunda-feira. Uma oportunidade de colocar a cabeça no lugar, um convite para caprichar na letra. 

Muitas vezes, a pergunta que nos ocorre quando surge a necessidade de definir um valor é "quanto preciso oferecer para que meu filho possa satisfazer alguns desejos?". É uma preocupação válida, claro, porém carece de complemento. Mais importante do que oferecer um valor que seja capaz de atender alguns desejos, é oferecer um valor que não seja capaz de atender todos. Se compra uma bola, não compra o jogo de videogame. Se compra o jogo de videogame, não compra a bola. 

Não será diferente na vida adulta: se escolhe morar em um lugar mais caro, vai ter menos dinheiro para curtir o final de semana; se presenteia 18 amigos por mês, não paga o aluguel; se opta por um sofá maravilhoso e enorme, talvez falte dinheiro para a cozinha. 

No fim do dia (ou da semana, ou do mês), o importante é oferecermos, em um ambiente protegido e amoroso, uma oportunidade para que a criança lide com a sensação de não conseguir atender, imediatamente, todos os seus anseios. Em um contexto de recursos finitos, escolher é, necessariamente, abrir mão de todas as outras possibilidades, e é fundamental que a criança se depare, logo cedo, com esta pequena frustração inevitável.

eduardo antunes