A ingenuidade do investidor inquieto

Imagem do artista  Adam Ring

Imagem do artista Adam Ring

Hei, você aí! Tá rolando a festa das debêntures aqui… você não vai entrar?!”. “Ô camarada, acabou de começar a balada da criptomoeda, é openbar!”. “Queridão, que bom que você está passando por aqui, estamos fazendo uma pequena confraternização em homenagem às cinco ações mais promissoras para esse ano, entra, tem coxinha!”. Em meio a tantas ofertas, tantas promessas, tantas opções, é normal dar de cara com um medo bastante comum entre os investidores: o medo de ficar parado. De perder o bonde, de ficar de fora, de se ver em uma posição passiva enquanto os outros estão lá, enchendo o bolso de dinheiro.

Andando por essa Las Vegas insólita, aprendendo o que é “custo de oportunidade” na prática —aceitar uma oferta é, necessariamente, negar muitas outras —, corremos o risco de vestir a carapuça do investidor inquieto. É aquele cara que está sempre procurando a melhor alternativa, sempre pulando de um galho para outro, sempre dizendo que "esse mês vai”.

Ele não trabalha diretamente com o mercado, não vive da renda gerada com os investimentos, mas gasta rios de tempo vasculhando a internet, lendo o caderno de economia todos os dias (como se o mercado já não tivesse precificado as notícias de ontem, de hoje e de amanhã) e compartilhando dezenas de textos com títulos complicados no grupinho do WhatsApp. Seu desempenho é bem inconsistente, frequentemente medíocre. O investidor inquieto não é o fulano do escritório, ou aquela amiga do colégio, o investidor inquieto sou eu e você, em uma época de confusão e falta de clareza.

Quando estamos com o crachá do investidor inquieto no peito, na minha opinião, nos faltam duas coisas. A primeira delas é humildade. Nos recusamos a aceitar que o mercado é, em muitos casos, imprevisível.

“Como assim eu não vou conseguir antever o cenário que vai se formar daqui 2 ou 3 meses? Como assim eu vou ficar de fora do grupo dos que tiveram a melhor rentabilidade de agosto de 2019?”.

Não levamos em consideração o efeito manada, a interação entre os mercados internacionais (e a influência do capital estrangeiro nos mercados menores), nem tampouco o fato de que os presidentes das maiores economias do mundo apresentam um comportamento que, bom, sendo bastante moderado e polido por aqui, passa bem longe da racionalidade.

Deixamos de lado também um fator que por vezes nos assola: o acaso — reclamemos o quanto quisermos, o acaso existe e por vezes é tão delicado quanto uma marretada. Na tentativa de acertar a cada segundo, buscando um desempenho maravilhoso, perdemos a capacidade de analisar de maneira mais estratégica, e isso nos leva ao segundo ponto: a falta de uma visão de longo prazo.

Quem salta de um lugar para outro, a todo o momento, não tem clareza de que, aos que não trabalham única e exclusivamente monitorando o mercado, é muito mais sustentável, rentável e menos insalubre trabalhar com prazos mais longos.

É melhor termos um desempenho nota 7 por 10 anos do que um desempenho nota 10 em um ano (às custas de muito suor, sangue e cabelo branco) e um desempenho nota 2 em outro, e nota 8 em outro, e nota 1 em outro, e assim por diante (nunca esquecer: o retorno é um prêmio pelo risco).

Para os números desse mês, é ruim que o mercado dê um solavanco? É ruim, atualizar a planilha vai ser bem dolorido mas, pensando que você está formando sua carteira com aportes regulares e que está mirando em um horizonte de 20 ou 30 anos, é ruim ter essa janela de preços mais baixos para reavaliar a estratégia e, possivelmente, fazer novas compras? Não é.

Por mais que buscar conhecimento técnico seja algo importante, não é lá muito interessante dedicarmos nossos dias a uma busca obsessiva por pequenas vitórias de curto prazo. Não estamos jogando videogame, afinal. Estamos falando sobre construir sonhos, sobre criar mecanismos que nos ofereçam sensação de segurança.

Para quem deu três passos para trás, cultivou uma visão ampla e se movimenta com um plano claro e bem definido, os períodos de pânico podem ser oportunidades. Dá uma tristeza perceber que aquele fundo de ações que a gente escolheu no mês passado tomou um baita chão por conta de oscilação mais brusca da bolsa?

Dá, é claro que dá. Mas se a escolha foi acertada (ou seja, se escolhemos porque conhecemos e confiamos na estratégia do gestor, por exemplo – e se nada disso mudou), nos resta respirar e ter paciência.


Nota do autor: Este texto foi originalmente publicado em minha coluna no Valor Investe, projeto do jornal Valor Econômico.


eduardo antunes