Quanto custa o mês em países que eu nunca imaginei que fosse visitar (alô, Bósnia, alô, Sérvia)

Cisne bem tranquilo em Vrelo Bosne, um parque bem próximo de Sarajevo, na Bósnia (sem filtro!)

Cisne bem tranquilo em Vrelo Bosne, um parque bem próximo de Sarajevo, na Bósnia (sem filtro!)

Depois de abrir meus planos para 2019, algumas pessoas comentaram que seria interessante se eu comentasse um pouco sobre o aspecto financeiro dessa história toda. Escrevi uma espécie de raio-x financeiro e, aparentemente, vocês acharam bastante útil (ou divertido), seja como exercício de planejamento financeiro, seja como referência para pegar a mochila e sair por aí.

De lá para cá, já publiquei bastante coisa. Todos os textos relacionados à viagem estão agrupados neste link: https://www.amuri.com.br/textos/tag/viagem. Alguns recados, antes de começarmos:

#1 - Os números refletem única e exclusivamente a nossa experiência (minha e da Gabriela, minha companheira). De maneira nenhuma ela serve de base para que entendamos como é a vida da maior parte da população. Esse comentário é especialmente importante quando estamos tratando de países em desenvolvimento, que ainda enfrentam problemas graves de infraestrutura – como é o caso de Moçambique, que foi nossa primeira grande parada – e também é chave para os países que se encontram em períodos bastante únicos – como é o caso da Bósnia e da Sérvia, que estiveram em guerra durante os anos 90 e que estão enfrentando um processo dolorido para entrar na União Européia.

#2 - Os valores citados neste texto compreendem nossos gastos somados. Caso você pretenda viajar sozinho, lembre-se que não basta dividir os números apresentados por aqui por 2. A conta não vai bater por uma série de motivos (um quarto de solteiro não custa metade de um quarto para casal, por exemplo).

#3 - Entenda que essa série de textos (os que passaram, este e os que virão) estão sendo escritos de modo que funcionem como exercícios de planejamento financeiro. É uma maneira de exemplificar conceitos que eu apresento em meus livros e cursos. Eu espero que eles sejam úteis, mesmo que você não esteja planejando uma viagem ou algo assim.

#4 - Estão sendo contemplados por aqui todos os nossos gastos pessoais. Acomodação, shampoo, cerveja, prato de arroz com feijão, ônibus para lá e para cá, tudo isso entra na conta. Por motivos óbvios, não estou colocando na conta os gastos relacionados com minha vida profissional.

#5 - Os textos sempre farão referência a períodos de 30 dias. Neste texto, no caso, comento o mês de junho de 2019.

Sem mais delongas, vamos aos números.

Um mês… diferente

Está sendo um mês bem diferente dos outros. Foram 6 noites em Sarajevo, a capital da Bósnia, e 25 noites em Belgrado, capital da Sérvia. Os locais inusitados (ao menos para nós, brasileiros) fizeram com que momentos tipicamente ordinários se mostrassem bastante desafiadores e demorados. Não foi muito fácil escolher o almoço:

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Para além de toda a delícia (e estresse) do choque cultural, esse ambiente diferente teve um impacto na nossa vida financeira: como pequenas idas à padaria nos entretinham, sassaricamos menos para lá e para cá e fizemos poucos programas “caros”. Some isso ao fato de que trabalhei um bocado por conta da abertura das vagas para meus cursos e o resultado é um mês bem razoável.

Aliás, uma pequena interrupção para uma propaganda honesta: se nenhum imprevisto acontecer, no dia 06/08/2019 eu devo abrir vagas para o Dinheiro Sem Medo e para o Finanças Para Autônomos (meus cursos online) e meu plano é incomodar o mínimo possível as pessoas que me acompanham, por isso estou filtrando, desde já, quem está realmente interessado através de uma listinha que eu apelidei carinhosamente de “me avisa” – caso você queira ser avisado, é só deixar seu contato aqui: meavisa.amuri.com.br.

Ainda estou experimentando a melhor forma de apresentar informações. Por enquanto, me parece que faz bastante sentido trabalhar com grandes blocos – geralmente o microgerenciamento é uma ideia ruim. Fiquem à vontade, caso queiram enviar sugestões a respeito da melhor maneira de organizar as informações por aqui.

Acomodação – 623 dólares

Em Sarajevo, na Bósnia, nós ficamos apenas 6 noites, infelizmente – a cidade é linda, rodeada por montanhas verdes, as pessoas são muito, muito abertas e a comida é um negócio de outro planeta. Por lá, ficamos em um estúdio, bem próximo da rua principal (a cidade não é imensa, tem 400.000 habitantes). Esqueci de tirar foto, mas era algo bem básico: uma cama de casal, um sofá, um banheiro e uma pequena cozinha.

Pagamos 40 marcos (aproximadamente 23 dólares) por dia. O marco é uma moeda cujo valor é sempre atrelado ao euro. Um euro = dois marcos. Fica bem conveniente para fazer a conta.

5 marcos (ou 2,5 euros)

5 marcos (ou 2,5 euros)

Passamos as outrs 25 noites em Belgrado, em uma apartamento simpático que reservamos há 4 meses, já que ficaremos bastante tempo por aqui (no total, serão 48 noites). Por conta da antecedência conseguimos negociar um desconto grande. Pagamos aproximadamente 2000 dinares (20 dólares) por dia, em um apartemente bem bonitinho, com uma cozinha mais honesta, uma sala confortável e um quarto bem espaçoso.

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Fechando a conta:

6 dias estúdio em Sarajevo: 138 dólares

25 dias no apartamento em Belgrado: 485 dólares

— Acomodação do mês: 623 dólares.

(quase) Todo o resto – 652 dólares

“Meu deus do céu, que consultor financeiro é esse que não sabe o quanto gastou com cada categoriazinha? Não vai ter um esqueminha dizendo que vocês gastaram tanto com comida, tanto com lazer, tanto com tal coisa…?”

Não vai. Durante os últimos 8 anos, eu passei boa parte do meu tempo criando, lapidando, aplicando e propagandeando maneiras mais saudáveis de se criar um planejamento financeiro, algo que contraponha essa coisa custosa e quase insuportável de ficar anotando e categorizando gastos, então não faria nenhum sentido eu me dedicar a algo parecido.

Trabalharemos com um valor que engloba a nossa vida por aqui e quebramos por semana. Quando faltou, puxamos da semana seguinte. Quando sobrou, a gente torrou na próxima. Contempla a comida, o café, o transporte, o lazer, as coisinhas de casa, enfim, tudo o que não é nossa acomodação.

No total, para além dos gastos com acomodação, gastamos 652 dólares. Farei alguns comentários.

Alimentação

A vida por aqui é barata e a categoria “alimentação” não é exceção. Em praticamente todos os lugares do mundo a diferença entre cozinhar em casa e comer em um restaurante é imensa. Essa diferença existe nos lados de cá, mas é bem mais sutil.

Em Sarajevo nós praticamente não fizemos mercado, por conta da falta de tempo e de espaço na cozinha, mas notamos que os preços são bem aceitáveis (menores do que os preços brasileiros, por exemplo). Uma refeição (imensa), para um casal, sai algo em torno de 10 marcos (cerca de 6 dólares) – fica aqui meu agradecimento especial aos que cravaram nesse lado do mundo o costume de porções imensamente generosas. A turma por lá é imensamente boa de pão e boa de doce, dá vontade de morar dentro da padaria.

Baklava de pistache

Baklava de pistache

Belgrado é uma cidade bem maior, cosmopolita, tem de tudo por aqui. Dá para gastar bastante, se quiser, porém o salário mínimo sofrido (350 euros/mês, contra cerca de 1650 na Irlanda, por exemplo) faz com que surjam inúmeras opções muito acessíveis. Um cevapi (um prato com uma espécie de kafta, cebola, repolho, pão e um queijo maravilhoso chamado kajmak) sai por cerca de 300 ou 400 dinares (3 ou 4 dólares, aproximadamente). Cogumelos, amoras e framboesas são muito comuns por aqui, o que faz com o que preço caia. Foi bem maluco (e gostoso) comprar um quilo (!?) de cogumelo por 1 dólar, ou um monte de amoras por 2.

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Uma regra básica: se couber iogurte, coloque

Uma regra básica: se couber iogurte, coloque

Pace: carne de vitela com muito alho

Pace: carne de vitela com muito alho

As duas cidades são repletas de feiras, com vegetais frescos, carnes e frutas. Com cerca de 25 dólares comemos, com tranquilidade, por uma semana. Se quiser comer tranqueira dá também, tem hamburguer em tudo quanto é canto, por cerca de 200/300 dinares. Eu tenho tentado guardar minha cota de gordura para os cevapis. Sentirei saudade.

Comida de casa

Comida de casa

Feira com um monte de morango a preço de banana (ha-ha)

Feira com um monte de morango a preço de banana (ha-ha)

A rotina (e alguns passeios)

Não estamos passeando muito, um pouco porque tenho passado boa parte do dia com a cara enfiada no computador, um pouco porque temos aula todos os dias (estamos estudando francês!) e outro pouco por temos bastante tempo por aqui, então dá para ir com bastante calma. Em um dia típico, eu vou para a academia pela manhã, que custou 2300 dinares e eu paguei feliz, já que diversas vezes a sensação térmica por aqui bateu os 38 graus, então é inviável correr ou se exercitar no parque, e em seguida monto minha pequena barraquinha (computador) em um café próximo. Um expresso por aqui sai por cerca de 150 dinares (1,50 dólar), mas eu raramente paro no primeiro.

Há coisa de duas semanas fomos assistir a final do campeonato mundial de polo aquático, os ingressos custaram 1200 dinares para cada um. Baita experiência interessante, eu nunca tinha visto nada parecido.

Choveu, amigos, e não foi pouco

Choveu, amigos, e não foi pouco

Nosso lugar favorito por aqui, por enquanto, é a Ada Ciganlija, que é tão pitoresco que eu não consigo nem explicar muito bem. É uma espécie de parque, com um lago represado artificialmente à partir do Sava, um dos rios que corta a cidade (o outro é o Danúbio – sim, aquele Danúbio!). Formou-se uma espécie de ilha, cheia de quadras, trilhas e pequenas praias. As pessoas vão para lá tomar sol, tomar banho no rio, fazer churrasco, jogar vôlei, basquete, fumar (muito, muito mesmo) e comer (também muito, muito mesmo). A entrada é gratuita e, como nós vamos aos domingos, o transporte público é gratuito também. É imenso, como vocês podem dar uma olhada no mapa.

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O almoço nos restaurantes que ficam na beira do lago é um pouco mais caro, provavelmente ficará em torno de 15 dólares para o casal, nos “restaurantes que aceitam cartão” (restaurante nutella), nos "restaurantes que só aceitam dinheiro”, em geral, a comida é mais barata (restaurante raiz).

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Transporte

O único gasto mais significativo de transporte por aqui foi a viagem Sarajevo-Belgrado, que durou cerca de 6 horas, de ônibus, e custou algo próximo de 84 marcos (42 euros, ou 47 dólares), para os dois. No mais, fazemos praticamente tudo a pé. Vez ou outra precisamos de um ônibus ou algo assim, a passagem custa 150 dinar (1,50 dólar). Precisei de um taxi para resolver algumas coisas, mas foi algo bem pontual, e custou 1000 dinares (ida e volta).

Consolidando

Com as caixinhas explicadas, fica fácil chegarmos em um total.

— Acomodação: 623 dólares

— Todo o resto: 652 dólares

Total: 1275 dólares

É um valor muito próximo do que havíamos planejado inicialmente (veja aqui).

Esse nosso acerto veio em boa hora, para compensar o erro grosseiro que cometemos na hora de estimar o quanto gastaríamos nas semanas em que ficamos pingando por aí, entre a estadia em Moçambique e a estadia Sérvia. Foram 20 dias que passamos entre Lisboa, Dublin, Londres e Cambridge. Gastamos pouco em hospedagem, já que estávamos visitando amigos e eles gentilmente nos ofereceram um teto, mas entre pints de cerveja boa, garrafas de vinho e restaurantes mais ajeitados, eu chuto que gastamos 50% mais do que o que havíamos planejado. E digo “chuto” porque chegou um certo ponto em que desistimos de acompanhar mais de perto e deixamos a coisa mais solta mesmo. Quando chegamos em Sarajevo colocamos a bola no chão e refizemos o planejamento.

Esse ponto é bem importante e costuma ser assunto dos plantões do curso Dinheiro Sem Medo: não há problema em refazer o planejamento. Não se obrigue a acertar os valores todos, a ideia não é criar algo engessado, que não é capaz de servir de apoio para a vida real. A previsão foi ruim? Refine, refaça, teste de novo.

Para seguirmos

Produzi bastante coisa tendo Moçambique como pano de fundo, e este foi meu primeiro texto contando um pouquinho da minha vida financeira aqui, na região dos balcãs. Vou listar os textos por aqui, em ordem, para o caso você ter perdido algum:

O raio-x financeiro de uma viagem pelo mundo

Quanto custa um mês em Maputo?

Dois centavos sobre o dinheiro em Moçambique – O sistema MPESA

Dois centavos sobre o dinheiro em Moçambique – Confiança e xitique

Quanto custa um mês no lugar mais incrível que eu já fui

Eu geralmente envio os textos primeiro para os que assinam minha newsletter. É uma maneira de compartilhar com quem gosta de seguir mais próximo, receber feedbacks e entender o que vocês estão buscando.

Por hoje é só, amigos.

Um abraço e seguimos.

eduardo antunesviagem, mocambique