Dois centavos sobre o dinheiro em Moçambique – A confiança e o xitique

Se desejamos um castelinho de areia, precisaremos de areia. Se desejamos um suco de laranja, precisaremos de laranjas. Se desejamos construir um sistema financeiro, precisaremos de confiança.

Parece um lance meio propaganda de banco, terno e gravata, solidez, “confie nesse ator com dentes branquinhos que nós contratamos e que está dizendo que nossa empresa foi feita para você", blablablabla, mas não é. É muito mais literal do que parece. Sem confiança, o sistema quebra. Deixando de lado subjetividades, se por algum motivo milhões de brasileiros deixarem de acreditar que com pedaços de papel retangulares (com cheiro esquisito) é possível comprar tomates, guardanapos e computadores, o sistema vai ruir. E isso não é algo brasileiro, nem é algo do nosso tempo. Acontece no Brasil, acontece na Suiça, acontece em Moçambique, acontece em 2019 e acontecia na época em que a turma trocava uns sacos de sal por sacos de batata.

Vivemos em uma época de abstrações: pagamos o taxi pelo celular, a conta de luz está no débito automático e tem gente que paga o mercado com o relógio touchscreen. Mas é importante que não nos enganememos. São abstrações tecnológicas, coloridas e deliciosas de usar, mas ainda assim são abstrações.

Nos últimos meses tive o privilégio de entender um pouquinho sobre o xitique, prática muito comum aqui em Moçambique. Para mim, foi um lembrete precioso de que, se escarafuncharmos um pouquinho, se abrirmos a embalagem, se estivermos dispostos a olhar atentamente, perceberemos o inegável: a argamassa que sustenta nosso caos é a confiança.

Fachada do Millenium, um dos principais bancos de Moçambique

Fachada do Millenium, um dos principais bancos de Moçambique

O xitique

Líria trabalha como faxineira e recebe um salário mínimo, ou seja, aproximadamente 6.000 meticais (360 reais). Atualmente ela possui uma geladeira (que aqui se chama “geleira” e se pronuncia “gilera”) em casa, sem freezer, o que é um grande problema em um local em que a disponibilidade de proteína é incerta. Se a pesca for boa em determinada semana, Líria (que ajuda a puxar rede em seu pouco tempo livre) trará muitos peixes para a casa e provavelmente não conseguirá consumí-los a tempo. Alguns vão estragar, o que é algo bem ruim em qualquer situação, mas torna-se ainda pior quando não sabemos se o mar estará de bom humor na semana seguinte. É possível que a rede venha vazia. Peixes sobrando em uma semana, peixes faltando em outra.

O sonho de consumo da Líria é um freezer, para facilitar a gestão da comida. Em Pambarra, na província de Inhambane, compra-se um freezer usado, em condições razoáveis, por 12.000 meticais. Dois salários mínimos inteiros.

Líria gasta pouco com a vida simples, é verdade, mas guardar 12.000 meticais, na raça, mês a mês, pouquinho por pouquinho, é uma missão bem complicada. Por isso Líria participa de um xitique de 1.000 meticais. Todo dia 30 – dia de pagamento, dia feliz – Líria se encontra com outras 5 amigas. É sempre uma pequena festa, aguardadíssima por todas. Encontram-se, “tomam uns copos”, cozinham juntas, conversam e, por fim, ajuntam o dinheiro arrecadado. São 6 amigas, cada uma dá 1.000, logo são 6.000 meticais somados, que serão entregues a uma delas, que certamente contará com um mês muitíssimo mais folgado e confortável. No mês seguinte o ritual se repete, porém outra pessoa recebe o montante somado. O ciclo continua. Cada mês, uma das participantes recebe o montante arrecadado.

O xitique que Líria participa é mensal, porém existem xitiques com formatos muitos variados (diários, semanais, mensais, bimestrais), mas a base é sempre a mesma: cria-se um círculo de confiança, estipula-se um valor a ser depositado no período e organiza-se uma fila, de acordo com as necessidades de cada um.

Funciona maravilhosamente bem porque conta com um ingrediente chave: de novo, a confiança. Os participantes do xitique confiam uns nos outros.

Alguns pontos interessantes:

  1. A inadimplência é baixíssima, já que todo o processo é extremamente direcionado e pessoal: “se eu não pago, são meus amigos que deixarão de receber, não é o diretor do banco"

  2. Há um compromisso público, que comprovadamente tem um impacto grande na efetividade das nossas promessas. Uma coisa é prometer que colocará numa gavetinha 1.000 meticais por mês, outra coisa é saber que outras 5 pessoas contam com os 1.000 meticais em determinada data.

  3. Os que não honram o compromisso não sofrem encargos financeiros, porém estão sujeitos a algo bem mais dolorido: a falta de credibilidade na praça, o julgamento dos colegas, a exclusão de um importante círculo social.

  4. É uma prática que emerge da comunidade, das pessoas, não tem banco por trás, não tem instituição financeira, nada. Feito pelas pessoas, para as pessoas.

É algo comum em todos os estratos sociais, dos mais pobres e aos mais ricos. As vendedoras do mercado municipal fazem xitique, motoristas de txopela (tuk-tuk) fazem xitique, empresários ricos fazem xitique. Tem xitique de 100 meticais (6 reais), tem xitique de 50.000 meticais (3.000 reais).

A Líria está engajada no xitique para comprar o freezer. Há os que participam de xitiques para trocar o sofá de casa, para mandar os filhos para a faculdade na África do Sul, para comprar um carro, ou simplesmente para colocar a vida (nada fácil) em dia.

Para além dos relatos que consegui por aqui, conversando com as pessoas com quem cruzamos, achei entrevistas interessantes na internet:

“No princípio, pensei que não pudesse conseguir tirar 500 meticais por semana, mas vi que isso não passava de um desafio e tinha que seguir em frente. O xitique parece doer quando são muitos mas quando chega a vez de receber tudo se transforma em emoção. É uma forma de materializarmos os nossos projectos sem recorrer aos empréstimos bancários, cujos juros são insustentáveis” [relato do Fabião Damas, visto aqui]

“Não pensei que fosse ter o que tenho hoje. Graças ao xitique os meus filhos têm o que vestir, vão à escola, para além de conseguir manter o meu negócio firme” [relato de Rita Muchanga, visto aqui]

Aos que quiserem aprender mais, este artigo, escrito pela Catarina Trindade, mestranda da Unicamp, foi bem esclarecedor para mim.

* * *

Cada um anda com sua própria carteira no bolso, é verdade; cada um tem seus próprios boletos para pagar, também é verdade. Porém, de maneira direta ou indireta, sobrevivemos e nos mantemos minimamente sãos porque fazemos parte de uma comunidade. Em meio a tantas falácias meritocráticas, conhecer a prática foi um alento, um lembrete de que variam os sonhos, os objetivos, os projetos, mas no fim do dia está todo mundo tentando ser feliz.

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Caso queira conhecer um pouquinho mais sobre a relação dos moçambicanos com o dinheiro, eu recomendo este texto:

Ando escrevendo um bocado sobre minhas viagens por aqui. Se você gosta do assunto, talvez estes textos te interessem:

Por enquanto é isso.

Sorte para a Líria. E seguimos.

eduardo antunesviagem, mocambique