O piano em nossos ombros

Bom dia, companheiros de pandemia. Hoje completam dois meses desde meu último texto por aqui e isso significa que eu furei as últimas quatro entregas. Parei para refletir sobre esse período e me ocorreu que não teve sequer uma semaninha em que eu não tenha pensado, com culpa e pesar, que "estou devendo texto pro Fernando, estou devendo texto pro Fernando".

A maior parte das minhas justificativas são válidas. Minha mãe teve covid, foi bem complicado, mas já se recuperou. Minha madrinha também teve, infelizmente não teve a mesma sorte e faleceu, sem contar com uma despedida digna do percurso maravilhoso que ela trilhou.

Peço desculpas por colocar essas informações desagradáveis e doloridas em um texto sobre finanças e comportamento (a gente vai chegar lá), mas acho fundamental que os lembretes estejam em todas as partes: quem está morrendo, de forma indiscutivelmente evitável – caso contássemos com algum nível de competência e compaixão no poder público –, são nossos amigos, parentes, colegas, mães e pais.

Outra parte das minhas justificativas são menos excepcionais: me enrolei com o trabalho, precisei atender compromissos que não conseguiria adiar.

Meu ponto é que "o texto do Valor" permaneceu adormecido num cantinho da minha mente, me incomodando de maneira sutil e respeitosa, como uma etiqueta de camiseta que pinica o pescoço de modo intenso o suficiente para ser notada porém não tão intenso ao ponto de eu falar "ah, meu deus, que porre, vou arrancar essa etiqueta agora".

Agora, que sentei para escrever para vocês e parei para refletir sobre esses últimos tempos, me ocorre que eu deveria ter escrito antes. Primeiro porque eu quero acreditar que, ao falar sobre dinheiro por aí, eu estou beneficiando alguém, segundo porque enquanto rabisco esse parágrafo eu sinto aquele pequeno prazer de quem cumpre com um compromisso e, terceiro, porque eu definitivamente gosto da sensação do cursor piscando na tela em branco.

O esforço necessário para romper essa resistência inicial é menor do que o esforço que eu fiz nos últimos muitos dias para lidar com a culpa por estar deixando esse compromisso de lado, mas eventualmente eu perco essa clareza e me parece que "deixar para depois" é, se não a única, a melhor opção. Um autoengano confortável.

Talvez você faça algo parecido por aí, mas ao invés de deixar para depois o "escrever o texto do Valor", a tarefa que você manda para baixo do tapete seja o "dar uma olhada no planejamento financeiro". Embora o processo cognitivo-comportamental seja parecido, o prejuízo, provavelmente, é maior.

Sem esse pequeníssimo norte, sem uma mínima clareza de onde estamos, cansados, nossas decisões financeiras tendem a gerar consequências mais graves do que deixar o editor chateado. Postergar esse olhar para os números está mais para um piano que a gente carrega nas costas do que para uma etiquetinha que pinica. O alívio, porém, é proporcional.

"Ah, Amuri, mas se eu parar para olhar pra esse negócio eu vou ver um cenário ruim e, por isso, eu instintivamente postergo".

Não te culpo, amigo, de verdade. Mas enquanto você não olha: 1 - você não tem a menor chance de consertar algo que está capenga, ou de começar caminhar em direção a uma solução; e 2 - você segue com esse piano pesando no ombro, mesmo que você finja que ela não existe ou mesmo que você já tenha se acostumado com esse desconforto gigante.

Veja, não estou dizendo que devemos atropelar nosso bem estar emocional e "fazer o que tem que ser feito", produtividade 100%, foco foco foco!, "sofre quem quer", ou qualquer desonestidade meritocrática do tipo.

Meu convite aqui é para que você tenha essa ponderação sempre presente: será que esse desconforto que provavelmente vai surgir ao iniciarmos determinada tarefa não é menor do que o desconforto que já estamos sentindo ao tentarmos fingir que essa tarefa não existe?

Encerro esse texto com dois pequenos votos: primeiro, que essa reflexão seja útil, te encontre bem e te ajude de alguma forma nessa época triste e, segundo, que eu me lembre dessa história toda da próxima vez em que me sentir tentado a deixar o texto para depois.

Um abraço e seguimos, amigos.


Nota do autor: Este texto foi originalmente publicado em minha coluna no Valor Investe, projeto do jornal Valor Econômico.

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Heloísa Sanchez