Vidas possíveis: Josinaldo, rei das areias do Maranhão

Esse é um dos perfis que poderia ter entrado no capítulo "Vidas possíveis", do livro Dinheiro Sem Medo, publicado pela Editora Saraiva, em 2017, mas que não entrou. :)

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Josivaldo anda pelas dunas do Maranhão como se andasse pela cozinha de casa.

Tem 33 anos e trabalha no parque há 20. Os olhos expressivos de menino contrastam com a pele seca e sofrida de quem nunca usou protetor solar. Mora com a esposa e com o filho, que tem 19. "Teve filho novo, né, Josivaldo?", perguntei. Ele riu e comentou que na verdade esse foi o segundo. O primeiro ele teve quando tinha 13. "Mas o primeiro foi de outra mãe... a mãe do meu primeiro é a irmã da minha esposa, ai com a minha esposa eu tive dois, quando a gente casou eu tinha 14, ela tinha 13, na época foi uma confusão danada, mas hoje a gente é tudo amigo". Não era nem meio-dia e já estávamos completando nosso décimo quilômetro de caminhada. Paramos para almoçar.

Estavamos em cinco. Notei que a dona Marinês, dona da casinha de sapê que serve almoço, colocou apenas quatro pratos na mesa. Falei para o Josivaldo que o almoço era por nossa conta, que ele ficasse à vontade. "Ih, carece não, eu tomo café da manhã reforçado e depois só vou comer à noite. Mas se eu quisesse a Marinês me servia de graça. Todo guia come de graça, sempre, em todo lugar". Josivaldo trabalha praticamente todos os dias. "Mas é só de junho a outubro, que é quando as lagoas estão cheias, depois é um marasmo só"

Em um mês bom, de altíssima temporada, Josivaldo fatura cerca de 12 mil. "Eu cobro 200 reais a diária, mas muito grupo de estrangeiro me contrata pra ficar 3 ou 4 dias direto, cruzando o parque e dormindo nos pontos de apoio, aí eu cobro mais caro. Mas eu já aprendi que esse dinheiro eu tenho que juntar. Nos meses de seca eu não ganho um real. Aproveito para ir pro Piaui, visitar a família da minha mulher".

Perguntei se a vida era cara no interior do Maranhão, e ele explicou que a única conta fixa mais alta que possuia era o dinheiro que envia toda a semana para a filha, que estuda e mora na cidade vizinha. "150 reais, toda a semana, tem época que é puxado, eu tenho meu dinheirinho guardado, mas tento não pegar de lá, porque sei que depois vou precisar. Aí tem luz e água, que é baratinho, meu celular é pré-pago, quase não gasta, internet quem usa é meu filho, mas ele vai nas pousadas pra pegar sinal. Tem que segurar, porque quando o parque tá vazio são três ou quatro meses só gastando, não entra um real".

"Você coloca na poupança, Josinaldo?". Riu de novo. "Não confio em banco, filho. Meu irmão tem conta no banco e já aconteceu duas vezes de ele ir sacar e o banco não ter dinheiro disponível, mandaram voltar na outra semana, e aí, como que faz? Eu guardo em casa mesmo". Perguntei se era na gaveta e ele respondeu que não. "Eu guardo é escondido mesmo.  O dinheiro que eu ganhei vendendo um terreninho que eu tinha está escondido também, deu 20 mil reais".

Está fazendo o possível para que a filha termine o ensino médio e seja a primeira da família e fazer faculdade. "A menina é sabida demais". Os outros dois filhos completaram o nono ano do ensino fundamental e resolveram parar. "Não tem como obrigar, né? Já são homem feito, querem ganhar dinheiro pra comprar as coisas, estou ensinando as coisas aqui do parque, eles querem trabalhar de guia também".

Expliquei o que eu fazia da vida, comentei que algumas pessoas me procuravam porque queriam se organizar. Ele disse que nem sabia que essa profissão existia. "Mas é bom mesmo, porque se não a gente gasta muito. O mal do cabra é a cana, né? Tenho amigo que gasta tudo em farra. Meus irmãos são assim também. Depois fica sem dinheiro pra comprar arroz, aí a mulher reclama com razão, né?". Contou que era o irmão mais ajuizado. "Somos em 9, moramos todos ali do lado. Eu ajudo minha mãe com o dinheiro do mercado, a gente toma café por lá todo dia". "Os 9 irmãos tomam café lá?", perguntei, meio espantado. Ele respondeu que sim, e que às vezes que eles levavam os filhos também. "São umas 30 ou 40 tapiocas, todo dia".

Terminamos de almoçar enquanto ele descansava na sombra.

eduardo antunes